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quinta-feira, 1 de março de 2012

ao coração de Chopin

Depois que se conhece um lugar, não interessa onde ele seja, tenho a impressão de que sempre ficamos mais atentos ao ouvir qualquer coisa que se fala sobre tal lugar. E, talvez devido a essa atenção extra, a cidade/país/monumento até então completamente desconhecido parece se tornar sempre uma das manchetes da vez.
Mais do que isso, quase me assusta o quanto é comum ver na TV lugares em que já estivemos. E sempre me sinto revivendo um pouco o que vivemos ao rever uma "paisagem" por outros ângulos e olhares...
E, de todos os lugares por onde já passei, Varsóvia é a cidade que mais respira história. Em cada quarteirão vê-se uma homenagem, uma placa, uma bandeira, uma estátua, um nome gravado. Infelizmente, grande parte de toda essa história é marcada pelos horrores da guerra, mas também por eventos incríveis de força e patriotismo dos poloneses.
Na semana passada, assistimos um documentário sobre o Chopin - um dos mais famosos poloneses de todos os tempos. E foi ótimo relembrar nossos dias em Varsóvia! Só então me dei conta de que há muito tempo quero escrever sobre isso e só agora me desenrolei. Mas sempre é tempo...
Frédérich Chopin nasceu em Varsóvia e lá viveu até os 20 anos. Em 1830, mudou-se para a França com sua família para fugir da guerra entre Polônia e Rússia (esse acontecimento é conhecido como "A grande emigração", devido ao grande número de pessoas que deixou o país). Chopin nunca mais retornaria à Polônia, mas nunca deixou de pensar em seu país e muitas de suas composições foram inspiradas em danças polonesas típicas.
Casa onde a família Chopin viveu de 1827 a 1830.
Atualmente, um museu dedicado ao compositor.
Um dos "trajetos" turísticos recomendados em Varsóvia  é completamente dedicado a Chopin (Fryderykowi Chopinowi, em polonês). E, em todos os pontos da cidade que fizeram parte da vida do músico existe um banco "especial". Além de contar uma parte da vida de Chopin, ele toca o trecho de alguma música quando você aperta um botão. Fiz um vídeo que, apesar da qualidade duvidosa, (não ficou muito bom, mas fiz o melhor que pude!) mostra a ótima ideia. Esse banco fica em frente a casa da foto acima, em uma das mais famosas ruas da Polônia, a Krakowskie Przedmiescie. 



Poder, de repente, ouvir um pouco de Chopin é como ter um minuto de paz em meio a agitação de uma cidade grande. Há poucos metros da antiga casa da família Chopin está localizada a Igreja da Santa Cruz.

Fachada da Igreja da Santa Cruz, na Krakowskie Przedmiescie.
À frente, "cubo" com representação original da igreja.

Nessa igreja foi enterrado o coração de Chopin, que morreu em Paris aos 39 anos. Atendendo à vontade do compositor, após sua morte seu coração foi retirado e levado em uma pequena urna para Varsóvia. Ele foi "incorporado" em uma das pilastras da nave central da igreja e recebeu a inscrição de um trecho da bíblia escolhido por Chopin:

"Onde seu tesouro está, também estará seu coração."

Pilastra da Igreja da Santa Cruz,
onde está o coração de Chopin.


Durante a Segunda Guerra Mundial, a urna foi retirada da igreja e guardada em outro local. E, assim como praticamente toda a cidade de Varsóvia, a Igreja da Santa Cruz transformou-se em um amontoado de ruínas... Com a sua posterior reconstrução, o coração de Chopin voltou "para onde está seu tesouro..."

E, ao coração de Chopin, que hoje completa exatamente 202 anos, nossa muito singela homenagem.


Rua Krakowskie Przedmiescie e um dos "bancos musicais".
Ao fundo, o prédio da Universidade de Varsóvia.



quinta-feira, 11 de agosto de 2011

No leste europeu

Muitas têm sido nossas aventuras desde que saímos de Dublin. Cruzamos o continente velho, de Lisboa até Cracóvia na Polônia. Passamos por Frankfurt e Dresden, a cidade que foi totalmente reconstruída após a segunda guerra. Estamos em Cracóvia desde domingo à noite, depois de cruzar a Alemanha de trem. Mas de todas as as experiências por que temos passado nesses quase quatro meses na estrada, a de ontem foi a de mais impacto, a mais chocante e inesperada. Quase duas horas de trem de Cracóvia, a cidade de Oswiecim passa despercebida se não fosse seu nome alemão, Auschwitz. Antes da invasão germânica na Polônia, a pequena vila de Oswiecim  ainda não conhecia os limites da crueldade. O antigo campo hoje abriga um museu que serve de alerta aos terrores da guerra. O mais chocante é caminhar pelo segundo complexo, conhecido como Birkenau (Auschwitz II). Lá a estrutura do antigo campo de concentração ainda se mantém, como os trilhos do trem que trazia os judeus de vários lugares da Europa, as ruínas das câmeras de gás e do crematório, e cinzas humanas. Foram horas de caminhada pelo campo. As toneladas de cabelos e os objetos pessoais encontrados durante a liberação do campo pelos soviéticos, expostas em Auschwitz I, são tão chocantes quanto o paredão onde poloneses, judeus, prisioneiros de guerra e homossexuais eram fuzilados. 
Os trilhos que levavam os judeus deportados direto para a câmera de gás em Auschwitz II.

A entrada de Auschwitz I, com a frase cínica "Só o trabalho liberta".
O caminho de volta a Cracóvia foi tomado pelo silêncio dos dois. O silêncio que até agora me causa medo. Visitar Auschwitz foi uma experiência inesperada e aterrorizante.