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terça-feira, 13 de setembro de 2011

sobre alás e acás

Começamos uma viagem a um ano atrás e o principal objetivo era aprender uma nova língua. Aprendemos muito mais do que isso. Aprendemos - na prática - que, muitas vezes, sutis diferenças no significado de uma mesma palavra podem causar situações um tanto quanto embaraçosas.
O mineirês, que tenho sempre afiado, foi causa de algumas dessas situações. Em Istambul, onde grande parte da população é muçulmana, tive que reeducar meu português para não arrumar um problema. Depois de dois ou três dias com a sensação de que, às vezes, todos os desconhecidos olhares se voltavam para mim, matei a charada: isso sempre acontecia quando eu via alguma coisa que me chamava a atenção e compartilhava usando o termo "alá". "Alá, aquele doce que eu quero comer...", "Alá, que ponte bonita..."
"alá a gatinha que mora com os filhotes na vitrine!"
Todo bom mineiro sabe que "alá" é o mesmo que "olha lá", mas para um muçulmano Alá é o nome de Deus - que, por isso, não deve ser usado em vão. Para quem não fala português, a única parte "entendível" na frase "alá aquele doce..." é o tal do alá. E é óbvio que, por exemplo, apontar para uma comida e dizer uma palavra sagrada pode não soar tão bem.
E no meu primeiro dia em Itabira me lembrei dessa estória ao recordar um termo que, talvez, tenha surgido entre as montanhas e o ferro da cidade onde vivi por tantos anos: acá. Sem o valor sagrado de Alá (com letra maiúscula), mas com o mesmo valor simbólico do meu alá (em minúsculas mesmo), o acá é, para mim, um dos mais importantes marcadores da cultura itabirana.
Nesse um ano, acho que quase me esqueci dessa palavra que, confesso, ainda não me sinto desenvolta o suficiente para incorporar no meu mineirês. Pois é, quase. Cinco minutos de caminhada pela cidade foram suficientes para fazer com que, não só o acá, mas também sobre o jeito de ser dos mineiros. Inigualável a tudo que vimos por todos os lugares que passamos. Inigualável e imperdível!

sexta-feira, 17 de junho de 2011

o canto da mesquita

Ao fundo, a Mesquita Azul que tem esse
por causa dos detalhes em azul na parte
interna da cúpula.
Na Itália devemos ter entrado em, mais ou menos, uma 120 igrejas. E algumas eram tão grandes e bonitas que mais pareciam ser museus do que igrejas, chegamos a ficar horas dentro de algumas.
E o que a Itália tem de igrejas, Istambul tem de mesquitas. Nunca tinha sequer visto uma mesquita de perto e todas, mesmo as muito pequenininhas, são lindas.
A mais famosa é a Sultan Ahmed Mosque, mais conhecida como Mesquita Azul. Durante muitos anos, essa mesquita era o ponto de partida dos muçulmanos que começavam a peregrinação rumo à Meca. Muito diferente das super ornamentadas igrejas, as mesquitas são grandiosas por fora, mas bem mais "simples" por dentro. Em geral, existem várias pinturas de flores e formas geométricas - no carpete, na cúpula, nas paredes, nos vitrais. Os enormes lustres são muito baixos e quase se consegue tocar alguns deles.
Para entrar, todos têm que, antes de tudo, tirar os sapatos. O carpete é sempre muito macio e a maioria dos fiéis se senta ou ajoelha no chão. Todos devem estar com joelhos e ombros cobertos e as mulheres devem cobrir os cabelos.
Várias vezes por dia, um canto sagrado é entoado pelos alto-falantes das mesquitas cidade afora e ouve-se de longe a forte voz do cantor. Na praça da Mesquita Azul, os cantores das várias mesquitas do entorno parecem formar um coral, com um canto muito sincronizado. Em uma das mesquitas que conhecemos, entramos bem na hora que o canto começou.




Apesar de termos tentado filmar e fotografar algumas coisas meio "escondido" para não parecer falta de respeito, quando a cerimônia pareceu ter acabado uma mulher que estava ao nosso lado - mas na parte dos fiéis e não dos turistas - perguntou se nós não queríamos que ela tirasse fotos nossa dentro da mesquita. Ela acabou tirando mais de uma, dando sempre as coordenadas de como e onde devíamos ficar. Depois da sessão fotográfica, nos despedimos e ela se foi. Mas voltou um minuto depois, com sua câmera na mão para nos mostrar que, durante a cerimônia, ela tirou várias fotos dos dois aqui. Eu bem queria entender o porquê. Nossa única comunicação que não foi através de gestos, foi justamente nessa hora quando ela perguntou: "América?" E respondemos: "Brasil!" Ela pareceu feliz com a resposta, se despediu com um sorriso e foi-se embora com sei lá quantas fotos nossas.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

com o pé do outro lado

Istambul é conhecida como a porta do Oriente: a cidade é dividida pelo Estreito de Bósforo que separa a parte européia da parte asiática. Ontem fomos pela primeira vez do outro lado. Existem três formas de se chegar a alguma das diversas partes asiáticas de Istambul: atravessando a ponte que liga os dois lados - o percurso pode ser feito de carro, ônibus ou a pé - ou pegar um barco. A última opção venceu com a unanimidade de dois votos!
Tinha lido sobre um passeio turístico de seis horas e que custa 25TL*, mas que apenas pára em uma pequena comunidade de pescadores, onde só existe um castelo (fechado para o público) e alguns restaurantes bem caros. Quase desembolsamos, mas acho que o ar da Turquia fez com que o espírito  negociador se manifestasse em nós! Ao que parece, esse passeio turístico não é lá grandes coisas e, como pessoas com horror a excursões que somos, estávamos com medo de, de repente, nos sentirmos parte de uma.
No barco, com locais ao invés de turistas,
de frente para uma das estações de Kadikoy
É claro que tinha que existir outra opção, pois quem mora aqui também pode ir de um lado para outro pela via marítima sem pagar tanto. A tempo, descobrimos um barco, que faz parte do transporte público de Istambul, que faz o mesmo trajeto do barco de turistas, mas cobra só 1,75TL por trajeto. Nada mal. E quando vimos algumas diferenças básicas entre os dois barcos, me senti mais no lucro ainda: o turístico é lotado e parece ser impossível conseguir um espaço para uma boa foto, enquanto o barco público é bem vazio - além de podermos ir e voltar quando quisermos.
Assim, pisamos, digamos assim, na pontinha da Ásia. Fomos para os bairros de Uskudar e Kadikoy - ambos bem diferentes da loucura turística do antigo centro histórico da parte europeia.
Em uma típica "casa de chá", em Uskudar.
Almoçamos em restaurantes bem locais e nos comunicamos com os garçons praticamente só com gestos. A minha sorte é que a palavra vegetariana é mais ou menos parecida em turco. Depois do almoço, tomamos uns oito chás em uma casa de chás. Geralmente, eles nem têm cardápios, pois o único produto à venda é chá de maçã - o cafezinho dos turcos.
Mais do que estar na Ásia, foi também ótimo ter visto um pouco do dia-a-dia das pessoas, fora do tumultuado centro turístico onde todos são vendedores e - sobretudo - negociantes.


*TL: lira turca, a moeda do país. Atualmente, uma lira turca vale pouco mais do que um real (uns três centavos).

sábado, 11 de junho de 2011

Exato um mês na estrada

Desde que deixamos Bolonha começamos um trajeto bastante diferente para nossos olhos. De Atenas para Tessalônica, passando pelo Monte Olimpo. Da Tessalônica para Istambul, passando por Kavala e Tekirdag. As 48 horas mais lindas da minha vida. São exatos 31 dias na estrada, não sei sequer que dia é hoje. Da mesquita ouço o canto que me impressiona muito. A viagem da Tessalônica para Istambul durou quase 11 horas, com quase duas horas paradas na fronteira. Ao chegarmos no terminal rodoviário de Otogar, que fica um pouco fora da cidade, pegamos outro ônibus que teoricamente deveria nos deixar na estação Askaray, onde pegaríamos um metrô de superfície para Sultanahmet, o bairro histórico de Istambul onde estamos agora. O motorista nos deixou no meio de um viaduto, em Askaray, sem referências e passeios. Os dois aqui e um casal de 70 anos (ele americano e ela da Nova Zelândia). Não sei o que aconteceu com eles, pois pegamos um táxi negociado a 10 Liras Turcas, que foram pagas com 10 Euros, mais que o dobro. Mas chegamos bem. Segundo o motorista gastaríamos on dakika (10 minutos) a pé do viaduto ao Sultanahmet. Gastamos 25 de táxi.    
O hostel é muito simpático e tem um terraço virado pro mar. Tivemos um café da manhã turco e depois comemos Kebab e visitamos uma mesquita. 
despedida em Thessaloniki com o tradicional Meze de azeitonas.
O
Meze nada mais é que a versão grega do tira-gosto.
Na foto, quatro tipos de azeitonas, nenhuma parecida com nada no Brasil
Na Blue Mosque, em Istambul